sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A Era do Espírito


“Tudo é nada. Até que um dia você descobre que aquele nada era seu Tudo”. Questionar a vida, a existência, a dor, a felicidade. Seria a felicidade um intervalo? Seria o sofrimento um desengano? Irrespondíveis (ou não), a verdade é que as emoções são inerentes do homem. Do homem bom e do homem mau. Estar feliz não é o mesmo que permanecer feliz. Mas então qual o sentido deste sentimento tão abrupto e veloz? Não sabemos. O que fica é a consciência de que tudo é passageiro, instantâneo. A felicidade e a tristeza são instantes, o que nos resta é a memória. E o comportamento de que algo incessantemente precisa ser resgatado.

Resgatamos os traumas, os amores, os dias felizes. Ou seja, o que define a vida não são as emoções e sim as lembranças.

Independente da particularidade que traz a busca de cada um, o ser humano é absolutamente complexo. Paradoxalmente carrega o status de original e igual.

Seria esta a Era do Espírito, uma vez que nos posicionamos em um caminhar em que a grande maioria acredita que o cenário atual é verdadeiramente pior do que qualquer outro? Tempos de crise, tempos de estiagem, tempos de revolta coletiva. E agora, o que faremos? Talvez seja este o momento de olhar pra dentro. Um “olhar pra dentro” que transborda. Que alcança o Universo, uma vez que ultrapassa a borda do ego.

Ter menos para gastar ou aprender a conviver com menos? El Niño ou consciência de que precisamos de mais árvores? Estiagem ou respeito ao meio ambiente e abandono do desperdício? Talvez esta seja a era que tanto esperamos. O despertar!

Nós já nos dedicamos à sobrevivência, à guerra, à tecnologia. Mas nós nunca – jamais – estivemos no tempo que se orienta pela prática do “dedicar-se ao espírito, ao todo”. Quem busca uma vida mais saudável, acaba de voltar de uma experiência que só lhe rendeu doenças. Quem olha para os animais com mais compaixão está descobrindo o amor. Quem vive com menos aprende a dominar sua insatisfação. As temperaturas elevadas indicam a necessidade do verde. Visto que as alternativas criadas por meio da tecnologia, como o uso o ar-condicionado, por exemplo, caíram por terra ao indicarem a falta da água como efeito colateral.

A consciência está despertando. Apontando um novo caminho. Um caminho que diz “não” ao desperdício. Um caminho que não dispensa os recursos, o tempo, a vida. Vivamos esta nova e única oportunidade de valorizar!

   (Mani Jardim - trecho de A Fresta de Minha Fossa Abissal) 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

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»» Debaixo desse céu de ideias. Dessa poluição de anseios. Existe um mar que tudo traz e tudo leva. Na correnteza do tempo nada permanece. Tudo flui. Tudo vai e tudo vem. Abre os braços, fecha os olhos e respira fundo. Que a onda que bate no peito traz o salgado saboroso da vida. Se joga, se molha e deixa o sol torar! ««


(Mani Jardim - trecho de A Fresta de Minha Fossa Abissal)


sexta-feira, 3 de julho de 2015



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Subitamente pôs-se a guiar com agressividade. No caminho, despiu todas as peças que não lhe pertenciam mais. Retirou a calça, a camisa e esfregou a face para que os lábios voltassem a empalidecer, como de costume.

Rompeu o silêncio com um grito rouco e fraco. Tornou a gritar, cada vez mais alto.
Com as rédeas firmes, acelerou o passo. Recrudescendo ao seu ciganismo. 

Aos poucos a impermeabilidade foi enfraquecendo, o raiar do dia despertou um sorriso tímido, sem dentes, mas sincero.
Nua e completa ela aquietou-se, pois toda eternidade estava ao alcance “daqueles olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.



(Mani Jardim - trecho de A Fresta de Minha Fossa Abissal)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

AFASTE-SE DE PESSOAS RABUGENTAS




Que tal dar uma vasculhada no que contorna sua vida, ou melhor – nas pessoas que contornam a sua vida? A gente sabe que pessoas rabugentas são C-H-A-T-A-S, mas pouco se fala do quanto elas também podem ser nocivas. Afinal, você quer ser músico mesmo que pra isso tenha que passar uns apertos no final do mês. Você quer fazer aquele curso alternativo que tem poucos interessados. Você quer aquela profissão que não escorre regalias. Quer viajar sem antes ter seguido os planos de aposentadoria dos economistas. E o principal: não suporta mais explicar que é por paixão. Você quer! Você tem grandes sonhos com suas ambições malucas e conhece histórias geniais de pessoas que foram até o fim. E tudo seria simples se a determinação dependesse só da sua força movendo aquilo que acredita. Mas existe aquele alguém que está ali para minar seus sonhos. Não falo daquela pessoa que se importa com você, alerta os perigos, mas deixa que você se arrisque. Falo de quem sequer se dedica a entender sua motivação. Falo das pessoas rabugentas. Aquelas que sempre dizem: isso não dá dinheiro, você está ficando velho... Pessoas rabugentas não sonham – elas poupam. Poupam vida, entusiasmo, expectativa, frio na barriga e – sobretudo – dinheiro.  Quer um conselho? Afaste-se de pessoas rabugentas! Não porque você não é forte o suficiente para lutar ao lado delas, mas porque elas podem fisgar você em um dia ruim, um dia que o seu projeto não foi bem sucedido, um dia de sol tímido... E quando você perceber estará engravatado atrás de uma mesa olhando um peso de papel que pesará em cada euforia que você amputou. E vai doer, talvez pra sempre, talvez você até se torne o rabugento. Lembre-se: é seu sonho, sua vida. Se for pra alguém olhar e dizer “hum, acho que não é isso” que seja você, depois de ter dado os seus próprios tropeços. 


(Mani Jardim - trecho de A Fresta de Minha Fossa Abissal)