quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Canta primavera, pá. Cá estou carente!


Se eu não te olhar – mar – eu não sei mais o que pode me acontecer. Essa mania de sonhar pés na areia e sal nos lábios não me deixa mentir. Me tornei obsessão, vontade profunda, desejo de mulher grávida, lombriga de criança, sei lá, acho que estou enlouquecendo deveras. Não posso mais ser livre quando durmo, não conheço mais o sonho despretensioso, sem pé nem cabeça, nem a noite dormida no escuro. Desde que comecei a sonhar contigo – mar – não parei mais, eu preciso sentir teu abraço brusco que me derruba em sorrisos e sensações malucas. Sou a tua apaixonada distante, aquela que vive para admirar-te de longe, pela fresta, da moldura que nada diz, pois dela não se pode tocar em tuas aguas. Mas agora já nem sei mais se posso continuar assim, a quilômetros, pois não sei mais se vivo ou se espero. Não sou dada a superstições, tampouco me ponho a ler horóscopos, porém, essa coisa de ser de peixes me atordoa às vezes. Seria isso? Talvez por ser de peixes eu me sinta assim tão afogada em asfalto e terrestre. Tão seca. Eu estou minguando sem hidratar-me em tuas aguas e esse meu Saara não me deixa mentir. Alguns dizem que sou triste, outros nem notam minha secura, mas o fato é que sou nada, nada além de saudade. 

(Mani Jardim - trecho de A Fresta de Minha Fossa Abissal)