sexta-feira, 3 de julho de 2015



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Subitamente pôs-se a guiar com agressividade. No caminho, despiu todas as peças que não lhe pertenciam mais. Retirou a calça, a camisa e esfregou a face para que os lábios voltassem a empalidecer, como de costume.

Rompeu o silêncio com um grito rouco e fraco. Tornou a gritar, cada vez mais alto.
Com as rédeas firmes, acelerou o passo. Recrudescendo ao seu ciganismo. 

Aos poucos a impermeabilidade foi enfraquecendo, o raiar do dia despertou um sorriso tímido, sem dentes, mas sincero.
Nua e completa ela aquietou-se, pois toda eternidade estava ao alcance “daqueles olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.



(Mani Jardim - trecho de A Fresta de Minha Fossa Abissal)