Eu
gosto das suas mãos em mim, das suas mãos no mouse, das suas mãos em tudo. Das
suas mãos de artista cheias de robustez e delicadeza. Gosto da maneira
cuidadosa com que faz tudo, você lida tão bem com cabos que me dá inveja.
Conecta um com o outro e pronto! Enquanto eu ainda estou me atrapalhando pra
trocar as pilhas do controle remoto. “Deixa que eu faço”, detesto quando diz
isso, me salvando das minhas duas mãos esquerdas. É sempre uma mistura de ódio
com alívio. Você corta a pizza, você é melhor que eu pra isso – eu admito. Tem
um cuidado pras coisas que a minha natureza desastrada não tem, quem dera ter.
Acho que nos completamos bem assim, enquanto eu contenho as águas dos buracos
da alma, você coloca o lixo pra fora – literalmente! Enquanto eu fico fazendo reflexões pra
escolher um filme, me demorando com aquelas brincadeiras de “vai lá, vou fechar
o olho o que escolher tá escolhido”, faço mil vezes até eu escolher de verdade
– enquanto isso – você já abriu as cervejas, pediu a comida e está sentado, pacientemente,
me esperando fazer qualquer coisa simples que eu sempre insisto em levar horas.
Mas sabemos que o meu cuidado detalhado nos protege de muito e a sua
praticidade resolvida também. Afinal, o que seria do sol objetivo sem toda
aquela bagunça de cores do entardecer? (Mani Jardim - trecho de A Fresta de Minha Fossa Abissal)
Eu sou alguém que se mudou, ainda não sei bem pra onde. Às vezes temo ter me mudado de mim mesma, me sinto distante, não só dos meus, mas também das minhas... das minhas manias, das minhas alegrias, das minhas pedaladas, enfim, talvez das minhas gargalhadas. Estou buscando o caminho de volta, mas me perdi, não sei mais por onde seguir, penso que tem caminhos que a vida toma que transformam os antigos e, talvez, não tenha volta. O tempo passa, a vida muda... e é possível que eu tenha me mudado de mim e tenha me perdido em uma floresta grande e sem nada que faça com que eu me reconheça. (foto: https://wallhere.com/)